Resenha

Resenha: Sangue Quente por Isaac Marion

· Por Isabelle Vitorino
Faz cerca de um mês que eu trouxe para vocês uma resenha da série The Walking Dead (para ver clique aqui) e como eu comentei nesse post que um dia traria a resenha desse livro para vocês, aqui estou eu para cumprir minha palavra. Espero que vocês gostem e que leiam tudo!
  
Título: Sangue Quente
Autor: Isaac Marion
Editora: LeYa
Páginas: 256
Ano: 2011
Em algum momento da história, os zumbis apareceram e agora o mundo está destruído. Os humanos normais fugiram para dentro dos enormes estádios de futebol e lá criaram suas pequenas comunidades. Mas nossa história é contada do ponto de vista de R, um zumbi que se arrasta como os outros, caça como os outros, come carne e cérebros (a mais fina iguaria) como os outros, mas que, às vezes, tem sonhos de como era ser humano, tenta se lembrar de sua vida anterior e filosofa sobre isso. Um dia, em uma caçada, R encontra Julie e, no meio da carnificina que seu grupo impõe ao dela, algo o impede de matá-la. Mas o que aconteceu? Será que ele é diferente? É possível haver atração entre humanos e zumbis? Serão eles Romeu e Julieta de um mundo pós-apocalíptico?

R é um zumbi como qualquer outro, sem perspectivas de uma vida pós-morte ou de uma mudança em seus hábitos, numa noite de caçada com seus companheiros ele se depara com um grupo de jovens que seria sua próxima refeição, contudo, após matar um deles e ir em direção a sua próxima vítima algo nele o faz parar sua caçada e ele passa a sentir um sentimento de proteção com relação a jovem. Abismado com aquilo que se passa em sua mente ele decide levar a jovem consigo sob o pretexto de que se deixá-la outros zumbis irão matá-la, mas ele não esperava que a jovem fosse uma guerreira e lutasse com ele, pelo que ela acreditava ser uma luta por sua vida. Porém, após conseguir convencê-la de que ele não vai machucá-la ambos voltam para o local onde o grupo de zumbis vive e passam a compartilhar uma vida juntos, onde descobrem que às vezes o exterior não condiz em nada com o interior de cada um, e principalmente, que para mudar o mundo cada um tem que fazer a sua parte e não apenas ficar sentado, esperando que as coisas aconteçam.

Em Sangue Quente, Isaac descreve uma sociedade imediatista, mas que em contra partida adora postergar. É surpreendente como podemos nos ver descritos ali, naquelas linhas precisas e férreas, principalmente porque os personagens desse livro são tão bem construídos que parecem ter vida própria e acabam por saltar das páginas a todo o momento para afirmar uma e outra vez, aquilo que o seu criador está nos dizendo. Sobre estes, posso dizer que R é um zumbir encantador. E não é só porque ele luta contra a sua natureza em busca de mudança e de seu “felizes para sempre” com a mocinha, não, ele conquista por ter personalidade, por errar e pela incansável vontade de acertar. O mesmo posso dizer de Julie, pois ao contrário daquelas mocinhas chatas que passam o livro inteiro “Oh Day! Oh Night!” ela tem firmeza no que diz, é forte, não é puritana e tão pouco dependente do mocinho. Ela sobrevive e sobressai sozinha. 

Tudo isso não soa encantador? E quando vem com uma dose maravilhosa de filosofia não fica melhor ainda? Pois bem, Isaac conseguiu com proeza coordenar tudo isso sem ser pedante e fez um livro maravilhoso que me conquistou de modo profundo. Entretanto, desde já aviso a aqueles que leem um livro apenas pelo romance do casal que nem se aproximem desse livro, porque o objetivo dessa história não é só esse, já que o autor foca desde o princípio em nos mostrar o que a união de duas ou mais pessoas podem fazer com uma sociedade sem fé e sem esperança. A única coisa que me incomodou no livro não tem nada haver com a história ou com o autor, mas sim com a edição. Gente, encontrei tantos erros de pontuação que eu fiquei abismada! Contudo, não é nada que vá atrapalhar aqueles que não prestam atenção nisso, mas é bom deixar registrado isso para que quem sabe a editora melhore nos seus próximos trabalhos. Atenção nunca é demais!


Isaac Marion conseguiu fazer com Sangue Quente uma incrível analogia a nossa sociedade, é impossível não reconhecer em suas linhas paradigmas da vida que vivemos hoje, seu tom melancólico que expõe para o leitor a real existência dos seres humanos causa uma urgência em parar para refletir cada frase e cada pensamento. Com certeza um livro para se ter sempre a mão. Mal posso esperar para ler outros títulos desse brilhante escritor contemporâneo.

 
Nenhuma história. Apenas estamos aqui. Fazemos o que temos fazer, o tempo passa e ninguém faz nenhuma pergunta. Mas como falei antes, não é tão ruim. Pode parecer que não temos cérebro, que não pensamos, mas não é verdade. As engrenagens enferrujadas da coerência ainda funcionam, só que em uma velocidade cada vez mais lenta, até que o movimento externo fique praticamente imperceptível. Nós grunhimos e gememos, damos de ombros e acenamos com a cabeça, e, às vezes, até uma palavra ou outra saem dos nossos lábios. Não é tão diferente de antes. Pág. 14

Playlist:


--- Isabelle Vitorino ---
Isabelle Vitorino — Compartilhando o que leio, sinto e penso.

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