Resenha

Resenha: O Verão das Bonecas Mortas por Toni Hill

· Por Isabelle Vitorino
Livros policiais não estão em falta no mercado editorial, principalmente porque a cada ano os autores contemporâneos “consagrados” lançam mais e mais livros. Contudo, todos eles podem ser considerados de qualidade? Após a leitura do livro ‘O Verão das Bonecas Mortas’, eu posso responder com um sonoro: não. E se vocês quiserem saber o motivo para tanto entusiasmo de minha parte, continuem a leitura desta resenha.

Título: O Verão das Bonecas Mortas 
Série: Inspetor Héctor Salgado #1
Autor: Toni Hill
Editora: Tordesilhas
Páginas: 376
Ano: 2013
Um romance policial que acerta em cheio ao construir uma trama instigante, com personagens complexos, atmosfera envolvente e muitas reviravoltas. Com um protagonista forte e bem construído, a trama conta também com personagens secundários que pouco a pouco ganham luz e ajudam a iluminar dois mundos diferentes na mesma cidade: um mundo de gente rica e privilegiada em contraste com o universo do tráfico de mulheres e de contraventores de pequeno porte.

Héctor Salgado é um inspetor de polícia, cuja carreira seria irretocável se ele não tivesse perdido a cabeça e surrado um suspeito de estar envolvido com o tráfico de mulheres. Como consequência de sua atitude impensada, ele foi obrigado a tirar férias e não poderá retomar seu trabalho até segunda ordem, já que o suspeito resolveu processá-lo por abuso policial. E como se isso não fosse suficiente, ele ainda tem que lidar com os sentimentos conflitantes que ele tem por sua ex esposa com quem teve um filho e com quem foi casado por 17 anos. Considerando sua vida em um estado infinito de inferno astral, ele é direcionado a encerrar um caso de forma extraoficial. Contudo, as coisas se complicam mais do que o esperado e enquanto ele tentar retomar sua carreira, ele se vê em meio a um caso que envolve alta-sociedade, drogas e segredos, muitos segredos.

Tudo começa no intenso verão de Barcelona. Marc, um jovem de família rica foi encontrado morto na manhã seguinte da festa de San Juan. Ao que tudo indica a causa da morte ou foi suicídio ou um fatídico acidente. Pelo menos era isso que todos acreditavam até o inspetor Héctor e a investigadora Leire entrarem em ação. A princípio, nem mesmo eles pensavam que algo diferente pudesse ter ceifado a vida do jovem de 19 anos, mas após o início da investigação eles se deparam com indícios que indicavam que havia muito mais oculto do que diziam os familiares e amigos de Marc. Em busca da verdade, mesmo que isso machucasse muita gente, o inspetor e a investigadora são levados a uma ligação entre esse caso e outro que remota a um verão de 13 anos atrás em que uma garota de apenas 12 anos de idade foi encontrada morta em uma piscina cheia de bonecas e que até hoje permanece envolto de uma áurea macabra. 

‘O Verão das Bonecas Mortas’ é daqueles livros surpreendentes em que o leitor se vê preso as suas páginas do início ao fim, pois é de posse de uma narrativa cativante e de personagens bem construídos que o autor espanhol Toni Hill, vai mostrando todas as nuances que envolve a vida policial e o cotidiano daqueles que fazem parte dela. Escrito em terceira pessoa, o leitor tem a visão da maioria dos personagens que são importantes para a trama, mesmo que o Héctor domine boa parte dos capítulos. E é através desses vislumbres que nós conhecemos mais deles e formamos nossas opiniões a respeito dos casos que estão sendo trabalhados no livro. Digo casos, porque além de trabalhar o caso do Marc, o autor ainda traz para o seu livro a resolução daquele que levou o Héctor a ser suspenso e que está sob a investigação de Martina. Apesar de a sua resolução ter sido menos complexa do que a investigação principal, eu gostei da forma como as coisas aconteceram e senti que o autor fez certo em não dar tanto destaque a ele, já que isso tiraria um pouco do destaque daquele que era o caso mais importante da história.

Acredito que um dos pontos principais de trazer esse caso para o livro é que dessa forma podemos conhecer um pouco mais a personalidade de Héctor, já que diferente de outros protagonistas de livros policiais, ele não faz o estilo daqueles que solucionam as coisas na pancadaria e isso acaba por ajudar o autor a demonstrar o quanto o seu personagem é mais racional que qualquer outra coisa. Além desse ponto, Toni Hill também se apoia no fato de Salgado ser ateu e de não acreditar na psicologia para formar os principais traços da personalidade do inspetor, que conseguiu me encantar por possuir uma faceta humana apesar de todas essas características que lhe passam uma imagem de extrema frieza. Outra personagem que teve sua dualidade bem trabalhada foi a Leire, já que vemos tanto o seu lado prático e dedicado no trabalho – que se estendia até sua vida pessoal –, quanto o seu lado emocional que emergiu após uma revelação perturbadora que ela teve. Ambos formam a “linha de frente” da história, porém além deles vemos também um pouco dos pensamentos dos outros personagens que vão sendo dados em pequenas doses e que podiam acrescentar tanto mais leveza quanto mais tensão ao enredo como um todo.

A maneira como o autor encerrou o caso foi o que me fez ter ainda mais certeza de que ‘O Verão das Bonecas Mortas’ era um livro extraordinário, já que ele conseguiu não só encaixar todas as peças do quebra cabeças formado desde as primeiras páginas do livro, como também, me surpreender com a revelação de todos os segredos que envolvia as mortes do “caso Marc”. Além disso, pelo que eu soube, uma série televisiva será lançada ainda este ano com base no livro, ela será dividida em dois episódios e já está sendo ansiosamente aguardada por mim, que me tornei um fã incondicional da genialidade com a qual o autor produziu essa história que passa longe dos enredos pré-fabricados que lotam as páginas de boa parte dos livros lançados atualmente.



[...] Nunca ninguém matou alguém por amor, isso é uma mentira dos tangos. Só se mata por cobiça, por despeito ou por inveja, pode acreditar. O amor não tem nada que ver com isso. Pág. 222

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--- Isabelle Vitorino ---
Isabelle Vitorino — Compartilhando o que leio, sinto e penso.

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